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Crítica: Escola de Berlim

Então você nunca ouvi falar da Escola de Berlim. Parabéns, você é absolutamente normal, como 99% da população global. Porém, aquele 1% está longe de ser um grupo de esnobes intelectualizados, daquele tipo que fala sobre Godard na fila do cinema. Acontece que a Escola de Berlim é um dos mais interessantes movimentos cinematográficos contemporâneos.

Até os anos 90 a Alemanha produzia principalmente besteiróis populares de humor pouco refinado. Brasileiros e Italianos continuamos a cometer este mesmo erro, mas os alemães romperam com o paradigma. E progrediram.

Surgida nos anos 90 como uma proposta de cinema autoral não-comercial, a Escola de Berlim inaugurou uma nova fase do cinema alemão. Nela, as questões existencialistas passaram a ser centrais, configurando um cinema reflexivo, onde desaparecem os grandes eventos dramáticos e ação passa a se desenvolver na intimidade de cada personagem. Se houvesse nascido após o ano 2005, se chamaria “Slow Kino”, mas felizmente não foi batizado com essa tendência ambientalista hipster que tanto atrai aos alemães.

Este novo cinema alemão é caracterizado por sua estética realista, sem chegar a ser exagerada, um realismo natural. É o ballet do dia-a-dia, onde a coreografia parece banal mas revela as dores e defeitos das relações humanas. “Você vê algo que vê diariamente e percebe, no mesmo instante, que nunca o vira antes. A Escola de Berlin vem criar uma consciência da realidade através da cinematografia, colocando o dedo na ferida”, ilustra o crítico de cinema Georg Seesslen, curador da mostra “Escola de Berlim”, que estará em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil até o dia 14 de Outubro.

A mostra apresenta ao público carioca produções de diversas fases da Escola de Berlim, que já se encontra na terceira geração de cineastas. Traz títulos de diretores consagrados como Thomas Arslan e Christian Petzold, mas também dá espaço para os estreantes. Nicolas Wackerbarth apresenta “Halbschatten (Meia sombra)” e Ramon Zürcher trás “Das merkwürdige Kätzchen (A gatinha esquisita)”, seus longas-metragens de estreia como diretores e exibidos pela primeira vez na edição deste ano do Festival de Berlim. Ambos os filmes falam sobre a solidão, numa análise pouco confortável de uma Alemanha cada vez mais individualista, onde é difícil discernir a tristeza da solidão. “Não há mocinhos ou bandidos, como fica claro no cinema tradicional. Na realidade não é fácil diferenciar o que é bom ou ruim para nós mesmos, na vida as coisas não são claro-escuro, são cinza, tudo está à meia-sombra.”, diz Nicolas Wackerbarth sobre o seu próprio filme.  O comentário, porém, poderia facilmente estender-se à escola de Berlin como um todo, resumindo a proposta de uma tendência cinematográfica ao mesmo tempo bela e desconfortável, onde o filme é apenas um meio de reflexão para pensar a sociedade alemã contemporânea.

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