Category Archives: retrato falado

Falsos poetas

Era a pessoa mais simpática deste mundo. Sorriso maroto, corpo cadenciado, um tipo carioca, arrastando os erres do seu nome. Você gostaria dele, na certa. Um desses tipos que não querem nada com a vida. Do alto dos seus 35 anos o pai lhe dá um trocado todo mês e pese a filha de onze anos, seguramente um acidente de percurso, nunca cresceu. Funcionário público, não podia ser diferente: mata o serviço burocrático de segunda a segunda, às suas custas, sua mesmo, leitor, afinal o salário dele de cada mês vem do seu, do nosso bolso.

Ah, charmoso, visual desleixado, barba por fazer, parecendo sempre recém saído da praia. Boémio, frequentador dos redutos tradicionais da imundície da Lapa, amigo dos fracos e oprimidos, desses que acham que ser tolerante e aberto é deitar em colchão de mendigo sem saber o quanto é triste e pouco reformadora a sua ode à pobreza. Um homem dedicado às letras, à poesia, aquela que rima amor e dor e se tece em guardanapos de papeis oleosos. (Nota mental: homem? Revisar emprego do substantivo). O estereotipo do poeta peter pan: bebe de segunda a segunda e acha que para ele o tempo não passa. Aliás, apenas uma discreta sombra de realidade e de compromisso com a vida já lhe provocam ânsias de vômito e desespero. Revida com lições de moral de ensino fundamental, “você não me pega”, mostra a lingua, um nível de discurso que cansa a beleza de qualquer uma.

E culto, eu disse, ele é encantador. Aprendeu o nome de dois ou três jazzistas, de quatro ou cinco poetas da antiguidade, ferramentas infalíveis de conquista que devem estar descritos passo-a-passo no livrinho “Como conquistar mulheres baratas”, provavelmente seu livro de cabeceira, jamais lido (nem este, nem nenhum outro volume), e que na verdade cumpre com a inestimável tarefa de escorar o pé do criado-mudo, 24 horas por dia, o tempo eterno. E o bom e velho criado-mudo, calado, espera ansiosamente o dia no qual será finalmente liberado da árdua função de ser um imóvel observador diário das peripécias esdrúxulas de um poeta banal, cafona e desnecessário.

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Simpático filho da puta

Quem não o conhecesse, diria que é um simpático filho da puta. Realmente era. Continuar a ler