Devir-escritor ou 120 Jornadas: Dia 1

(Leia primeiro o Dia 0)

Eu me sentia a Sophia Loren do terceiro mundo: óculos de plásticos da H&M, bicicleta vintage dobrável, affairs exóticos do Meio Oriente, Phillip Glass do ipod, lendo Homi K. Bhabha. Todo o glamour da vida da jovem artista conquistando o velho continente foi por água abaixo. Estava à beira de um rio nos Alpes, criando um vestido com lã encontrada numa fábrica abandonada, tão velha que dava coceira, tecendo segundo eu o futuro da moda conceitual. Subi num barranco com o tear, caí. Bati com o cóccix. Senti vergonha, me senti igual a todos os demais, igualmente frágil e instável, desatenta, passível de quedas físicas. Mas esta foi uma queda moral. Caíram das minhas mãos o tear e as máscaras, caíram as fantasias e estouraram as bolhas de sabão que eu chamava de abrigo. Por aí devo ter perdido o único que me restava de amor-próprio, misturado com Delorazepam.

Saí do hospital com a felicidade em frascos. Apenas 20 minutos depois de sentir raiva e confusão no corredor da emergência, meu único desejo era fazer piadas e tomar sorvete.  Eu ria do sorvete derretendo, enquanto ele continuava a derreter. Devo ter ficado assim neste estado catalítico por uma meia hora. Depois dormi, 17 horas seguidas.

Desde este dia tenho dificuldades para acordar. Eu levanto da cama e me espreguiço, mas minha mente continua num estado permanente de sono, mas também de vigília. A ficção denominou “zumbis” aquelas da minha raça, um estado pós-morte onde você continua vivendo por inércia. Os anos de inércia passaram sem eu perceber.

Grita, briga, lança a aliança de casamento, faz as malas, sai, volta em 2 minutos, chora, promete que vai melhorar.  Acorda, limpa a casa por horas, escuta música alta, escolhe uma nova profissão, bebe para comemorar. Chora, bate com a cabeça na parede, lança a aliança de casamento, joga tudo no chão, fica muda, grita, pede desculpas, acredita que dessa vez vai melhorar. Compra roupas, escuta músicas antigas, tem um novo insight, muda de profissão, bebe para comemorar, volta a pintar.

.

Entre delírios e euforia, estava fragmentada. Recife, Rio, São Paulo, Brasília, Quito, Havana, Amherst, Groningen, Barcelona, Hône, Santa Rita do Sapucaí, havia um pedaço meu em cada um destes lugares. Era impossível lembrar de todos, era impossível recuperá-los. Eu deixara de existir há muito tempo, ou talvez nunca fora mais do que um programa de milhas e cartão fidelidade disfarçado de ser humano. A minha paranóia se compunha de uma única obsessão: descobrir quem eu realmente sou.

Eu não tinha a menor ideia de por onde começar. Havia tentando de tudo, e a única certeza que tinha é que nada daquilo me fazia feliz. Cheguei ao limite. Vaguei andando em círculos por mais ou menos 3 horas, desmaiei no supermercado, desmaiei na escada, não voltei para casa. Chorei por quase 72 horas. Não me importava mais nada. Não havia entes queridos, respeito, tolerância, muito menos futuro. Havia apenas a obsessão de descobrir quem é esta pessoa estranha que habitava a minha mente, que permanecia calada num quarto empoeirado, sentada em cima de um baú velho e sabotava cada tentativa de ser feliz. Ela não me deixaria em paz em quanto eu não descobrisse o que a alimenta.

Esta foi a primeira tarefa realmente desafiadora que encontrei no meu caminho. São 20:15 PM e eu ainda estou acordando.

Continua…

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