Devir-escritor ou 120 Jornadas: Dia 0

Prólogo

Era uma obsessão que me custou seis anos, uma dívida de 12 mil euros, uma enxaqueca que ocupa 1 terço da minha vida, um início de hérnia de hiato, uma crise matrimonial que beirou o divórcio, a falência de uma empreendimento individual e a delícia de ouvir a sonora frase “não precisamos mais dos seus serviços”, no melhor estilo Donald Trump em The Apprentice. Por inúmeras vezes me imaginei caindo de uma janela do 11o andar numa viagem misericordiosa e sem volta. Invejei em silêncio todas as pessoas obstinadas que conheço. Aquelas que acordam e sabem o que querem. Aquelas descansam enquanto dormem.

Incessantemente pensei durante 6 anos. Sonhos se misturavam com soluções enquanto dormia, o que às vezes me levava a ter que estar na cama por 10, 12 horas para sentir-me algo repousada. E quando achava que finalmente tinha alcançado a paz, a mente desabava de novo, oscilando entre picos de depressão e euforia.

Começou no verão de 2007. Eu pintava quadros. Tinha no meu currículo exposições individuais e coletivas, vira de uma valiosa experiência em uma escola de artes holandesa e me encontrava entre 17 jovens promessas artísticas de uma fundação italiana. Não tinha a menor ideia de como chegara ali. Meu trabalho não era tão bom, eu não gostava de nada do que eu produzia e pintar para mim era um sofrimento acompanhado de muitas doses de Martini. Era o momento no qual eu tinha que dar vida a todos os meus demónios, disfarçados de cores.

Um dia acordei no quarto do Federico. O quarto era muito escuro e não tinha janelas. Eu o conheci há apenas algumas semanas, mas o nosso florescente amor deixava tudo leve e bonito. Era verão e fazia calor, devia ser 11 da manhã. Eu sempre acordava às 11, religiosamente. O verão na Itália era saboroso, repleto de sabores simples e refinados, repleto de pessoas bonitas, de conversas interessantes. Eu sabia que aquele verão iria mudar radicalmente a minha vida, porque não conseguia visualizar nada além dele, não tinha planos, não tinha muito dinheiro, nem amigos, nem família. Eu estava completamente só.

Estiquei as pernas e senti uma leve dormência. Comecei a balançar as pernas, para ver se passava o formigamento, mas só piorava. Imediatamente fiquei de pé. Eu conseguia ficar em pé, e aquilo não combinava com a dormência que eu estava sentindo. Comecei a ficar com a cabeça confusa. A respiração de repente era lenta e eu sentia muita falta de ar. Fui até o jardim, onde Federico e a mãe dele conversavam, e disse o que esta sentindo. Ela me deu uma bombinha para a asma, mas eu nunca tive asma. Senti meus braços também dormentes, sentei na cadeira de ferro e de repente tive muito, muito sono. Eu queria me sentir normal, e peguei um pêssego que estava sobre a mesa. O cheiro era doce, o pessêgo era carnoso, nunca voltei a ver um pêssego tão bonito e eu nem gosto tanto de pêssego. Tentei comer, mas não conseguia engolir.

Federico me colocou no banco de trás do Alfa Romeu preto do pai dele. Nunca tinha andado em um Alfa Romeu, e pensei que pelo menos morreria em grande estilo. O hospital mais próximo era a uns 35 quilómetros, e ele dirigiu o mais rápido que pode. Me corpo estava cada vez mais dormente, e a sensação de não poder respirar estava quase insuportável. Meu coração começou a acelerar, meu braço começou a doer. Eu estava tendo um infarto. Disse para o Federico a minha senha do banco, para que ele pudesse cuidar de mandar meu corpo para o Brasil. 4 dígitos apenas, era fácil de lembrar. Dormi.

Acordei no corredor do hospital, com um paramédico ao meu lado, o rosto mais italiano que eu vira na vida, moreno, cabelos curtos e pretos, nariz fino e comprido, sorrindo placidamente e dizendo: “tranquila, você não tem nada.  A oxigenação do seu sangue e a sua pressão estão normais”. Uma doutora com olheiras, cabelos tingidos de caramelo e levemente maltratados, grossa e muito mal amada me deu um remédio, assinou um papel com uma receita e disse: “não perca mais o meu tempo. Pode ir para casa”.

Estas palavras foram o pior insulto que escutara na vida. Eu estava ali, prestes a morrer, e a minha vida era considerada apenas uma grande perda de tempo. Nenhum consolo, nenhum exame, nenhum gesto de simpatia ou compaixão com uma pessoa que estava sozinha e assustada. Tinha anos que eu não via meu pai, minha mãe, meus amigos da faculdade, que eu não ia em festas de família. Todas as pessoas que sabiam a minha história, que poderiam recordar quem eu fora, o que eu fizera, estavam há milhares de quilómetros de distância, não haveria elogio no meu funeral. Eu escolhera trilhar o meu caminho sozinha e ultrapassar todos os limites da minha zona de conforto com uma audácia, garra, persistência e coragem que não muitos jovens de 26 anos tem. Mas num sábado de verão, todas as certezas esvaeceram e a minha mente como eu a conhecia deixou de existir.

Continua…

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