As regras gramaticais dos felizes desencontros

PARA! Deixa eu ver se eu entendi. Então que dizer que você está a fim de me ver. Vistos os acontecimento fortuitos do nosso remoto passado, assumo que tenha interesses românticos. Sejamos claros, interesses sexuais. Sim, eu sei que para os homens o sexo vem antes do romance. Para a mulher já não, tudo vem DEPOIS do romance, mas a essas alturas da vida, dar logo na primeira vez não é mais um tabu. Poderia até lidar com isso. Veja bem, PODERIA, futuro do pretérito do indicativo. Tempo verbal das hipóteses, uma possibilidade. No seu caso, uma em 50 milhões. Entendeu ou quer que eu desenhe?

Veja bem,  eu sou uma mulher feliz, querida, bonita, bem empregada, realizada, conta no banco felizmente positiva, não pago aluguel, não tenho dívidas, poliglota, independente, não sou ciumenta. Sem falsas modestas, eu sou uma mulher de todo respeito. Primeiro insisti para que você crescesse e deixasse os recadinhos do facebook de lado. Quer me ver, me liga e a gente combina. Sem sucesso. No máximo chegamos aos SMS.

– E aí? Aparece quando?

– Oi, querido (eu e minha triste mania de chamar todo mundo de querido). Estou livre hoje. Chopp?

– Quando estiver pelo centro me avisa.

– Eu não vou até o centro hoje. Vem aqui pelo meu bairro, a gente faz algo por aqui.

– Ah, não vai dar.

–  É, estamos com preguiça hoje, né? 🙂

– Se a gente não se ver hoje, só daqui a 20 dias.

Querido, eu não estou louca para te ver. E não precisa baixar o nível com chantagem, a última arma de que não conhece a arte da argumentação. Nunca leu Schopenhauer.  Te garanto que vou sobreviver aos 20 dias sem te ver. SE eu quiser te ver. Conjunção subordinativa condicional, e para comprovar esta regra gramatical, basta substituir SE por CASO. Porque o encontro seria meramente casual e despretensioso. Estou acostumada com gentlemen. Não, você não é um deles.

Menos de 20 dias depois, de novo pelo facebook.

– Cara, eu já tive com gente doida, mas você está em primeiro lugar. Realmente não da para entender esse seu comportamento – se é que tenho que entender alguma coisa. É crise pós casamento, ou é estar perdida na própria loucura? Caramba!!!

– ??? Hahah. Do que você está falando? Dos nossos (des)encontros?

PAUSA: Eis que já fui muito gentil. Então você acha que eu estou louca porque evito me despencar para o centro da cidade, onde não tinha nada o que fazer, exclusivamente para te ver. E depois disso te ignorei por 20 dias. Talvez, TALVEZ se você fosse o Leonardo de Caprio. Advérbio de dúvida. Dúvida? Não, tenho certeza que não se parece remotamente com o Leonardo de Caprio. Mas a gentileza é a minha pior inimiga, e ainda te dei uma possibilidade de sair dessa com elegância.

– Vou te internar isso sim!!! Você está bem? Pelo menos isso, tá bem?

PAUSA: Acho que você não entendeu quem aqui está precisando de internação…estou super bem!

– Muito bem! Nunca estive melhor, na verdade. Mas não entendi você com isso de internação, a gente só tem se desencontrado… de repente a gente se interna junto! E você, está bem?

– Sim. Aparece quando?

– Sei lá, ando trabalhando bastante em casa nesse período.

– Ok. Quando melhorar apareça.

PAUSA: Melhorar o que? Acabei de te dizer que nunca antes estive melhor. Gosta de gente doente? Tá lendo? Hellouuuuu!

– Se melhorar estraga! Você também pode aparecer por aqui, Engenho de Dentro, não tem erro.

– Nerita, com todo respeito. Estou morando na Lapa.

PAUSA:  Mora na Lapa, de aluguel numa kichenette. Mas e daí? O que isso tem a ver?? A distância entre a Lapa e o Engenho de Dentro, ou o Engenho de Dentro e a Lapa é exatamente a mesma. Estudou geometria? Vou ter que desenhar? Escolho a provocação, vamos provocar um pouco para ver até onde vai o egocentrismo da pessoa…

– Não entendi. O que tem a ver morar na Lapa com eu aparecer aí ou você aqui?

– Coloquei tudo de melhor no apartamento. Até ar condicionado tem agora. Nada melhor. Vou a festas em Ipanema e Rock ‘n Rio grátis. Não vou por aí tão cedo.

PAUSA: Então é isso mesmo??!! Você, da altura dos seus 45 anos, ACHA que está bem de vida porque tem ar condicionado e mora de aluguel na Lapa? Evito falar que também entrei grátis no Rock ‘n Rio. E não menciono que meu apartamento tem três quartos e não pago aluguel.

– Que preconceito! O mundo é grande e todo lugar tem seus encantos.

– Ainda mais com você desse jeito, doida. Aí não vou mesmo. Tu dando chilique, eu hein, tô fora.

PAUSA: Chilique? Quer dizer que sua majestade nunca tomou um fora na vida? Fora agora é chilique? Não sei que mulher te deu toda essa moral. Ela sim deve estar louca. Haja canetinha para desenhar…

– Posso te perguntar uma coisa na boa? Você acha mesmo que eu que tenho que ir até a sua casa para te ver?

Porque, querido, deve ter algo aí que eu não estou entendendo. Só pode. Eu devo estar lendo mal, devo estar míope, ou burra. Nunca vi nada parecido. O cara quer me comer e acha que eu tenho que sair da beleza do meu lar, de noite, para me despencar para uma kitchenette na Lapa, epicentro da decadência, me sentar num pé sujo, tomar uma cerveja com aquele isopor em volta para não esquentar, escutar ele falando horas sobre si mesmo, fingir que estou gostando e talvez, se eu “me der bem”, terminar a noite fudendo com um sujeito com todas as suas “qualidades” (como ar condicionado e ingressos grátis para o Rock ‘n Rio)? Não, ver o show do Justin Timberlake não é o meu maior objetivo de vida….

– Sim acho! Acho não, tenho certeza. Inclusive vir para me beijar.

PAUSA: Aqui eu caí para trás. Ri como nunca. Gargalhei. Doeu a barriga. Perdia respiração. Fiquei vermelha, rolei na cama. Nunca ri tanto. Alto. De passar mal.

Querido, vou te explicar direitinho. O mundo está cheio de homens interessantes, bonitos, ricos, que beijam bem. E até estes eu estou desdenhando. NÃO, advérbio de negação, que modifica um verbo, adjetivo ou outro advérbio. Raramente modifica um substantivo. O seu caso é raro. Este “não” modifica o substantivo, o homem. Porque NÃO, você não é um deles, nem interessante, nem bonito, nem rico. E nem que você fosse o último homem sobre a terra,  não estou minimamente interessada em saber se você beija bem. Entendeu, ou quer que desenhe?

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