Delírios megalómanos da Geração Y

Nunca prestei muita atenção nos traços distintivos da minha própria geração. Nascida em 1981, cresci entre o frenético desenvolvimento tecnológico e a exposição mediática da guerra fria, acostumada a assistir ao sofrimento alheio desde o conforto do meu sofá. Lembro-me da Audrey Hepburn acariciando aquelas crianças desnutridas e daquelas imagens horrosas e fascinantes de pessoas brigando por grãos de arroz em Ruanda, eu, criança de classe média, exposta desde a infância à espetacularização da miséria, que parecia sempre longe, que parecia sempre pertencer ao outro. Tudo isso permeado por uma educação que condenava o bom e velho tapa, que dava voz e voto a uma adolescente rebelde e idealista, quem acabou por votar no Genoino e deu no que deu. Inevitavelmente, já na minha vida quase-adulta, virei uma pessoa individualista e ambiciosa, incapaz de confiar na humanidade, dependente de gadgets tecnológicos e sem tempo nenhum para relações humanas profundas e verdadeiras, intolerante e intolerável, dona da razão e manipuladora, enfim, ocupada demais como para pensar que os outros simples mortais da minha geração compartilhassem comigo traços comportamentais similares.

Há uns meses, por razões alheias a minhas maiores vontades, voltei a morar na mesma casa que o meu irmão, indivíduo igualmente egoísta e egocêntrico, e que tem mania de geração. Aliás, tão egocêntrico que tem mania exclusiva da sua própria geração. Nascido em 1987, ele define a sua como a geração mais curta da história da humanidade, que compreende somente os nativos entre 1986 e 1989, sujeitos naturalmente violentos, inteligentes, apáticos, alheios à realidade, insensíveis aos sofrimentos da humanidade, pertencentes à famílias que eles mesmos escolheram, que podem ser grupos musicais ou clãs de vídeo games online. Eis que me deparo com uma geração que descarrega a culpa de seu comportamento indolente na existência mesma da sua própria geração, um pensamento cínico e refinado, brilhante!

Com uma grande inveja, procuro entender a minha geração, esperando encontrar desculpas e explicações para o meu próprio comportamento crítico e temperamental. A geração daqueles nascidos entre 1977 e 1985, mais ou menos, é marcada por um grande fator característicos: somos todos egoístas. Andamos sozinhos nos nossos carros, skates ou biclitas, incapazes de compartilhar tempo com ninguém, ocupados demais com os nossos planos de vida, os nossos livros de superação profissional e a nossa megalomania para dedicar atenção à alguém que não seja naquela foda rápida de no máximo 30 minutos. Sim, quem precisa foder mais de 30 minutos? Caracterizados pela falta de amor, desiludidos, nada românticos, queremos parceiros funcionais, de preferência de outras gerações, que se ocupem da casa, dos filhos, das contas, das programações de viagens. Assim temos tempo de sobra para contemplar os seres humanos mais fantásticos que conhecemos, na frente do espelho. Porque além de egoístas, somos também egocêntricos. Acredito que somos das primeiras gerações que fez faculdade e mestrado, e a gente se acha phoda, e se acha phyno, e sentimos uma verdadeira aberração por quem discorda de nós. A opinião diferente é burra, medíocre e inaceitável para os nativos da geração Y, e alcançamos a apoteose desta arrogância inata ao excluir das nossas vidas quem não nos “curte” e nem nos “compartilha”. Somos os reis do bom gosto, os maiores clientes da Tok Stok, incapazes de ter uma ideia original, artistas do roubo e da astuta imitação, fazendo passar as maiores colagens por originais obras da criação e do pensamento humano. Não é de se estranhar que Quentin Tarantino figure nas listas de diretores preferidos de 100 entre 100 pessoas desta geração. Temos uma queda pela decadência e louvamos as drogas em formatos de pílulas médicas. De fato, Kurt Cobain, figura que reúne todos os clichês das características aqui descritas, antecipou a nossa geração e é o nosso maior herói, aclamado por seu estilo, mas que não compartilha com nós o bom gosto por mulheres. Aliás, as mulheres da minha geração são todas lésbicas. Que atire a primeira pedra aquela que não gosta de colocar as aranhas para brigar de vez em quando. Dentre tantos defeitos, pelo menos compartilhamos uma qualidade: somos a menos moralista e sexista das gerações, alcançando graus de tolerância até então nunca vistos. Esnobamos sem distinção de credo, raça ou orientação sexual. Aliás, esnobamos tudo que não nos traga fama ou dinheiro. E ainda temos a coragem de nos definir socialistas e começo a pensar que Y esteja para a definição de um tipo de esquizofrenia compartida.

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3 thoughts on “Delírios megalómanos da Geração Y

  1. Sylvia Arcuri diz:

    Já gostei do título – A Arte do cinismo.
    Esqueceu de colocá-lo na lista da sua geração. Diferente, a minha foi, ou ainda é a do banho-Maria. Enfim, gerações passam as pastas de dente ficam. Gostei.

  2. lufeijo diz:

    Fiquei pensando sobre nossa geração… pensei que eu não a entendo! Ou melhor, entendo e dói!

Reclame aqui :P

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